Trapezista

Microconto Inabitual

Da noite para o dia apareceu no terreno baldio da rua de baixo. Um aparato gigantesco e colorido que encheu os olhos de quem passava para o trabalho ou casa. Meu primeiro circo. Como conseguiam montar uma estrutura dessas? Teimosos os artistas, enganavam a monotonia. Meu pai deixava de ser carrancudo por uns dias e levava a gente para ver o espetáculo. O trapézio, eu amava as trapezistas.

Algodão-doce. Dois. Caminhamos, a trapezista e eu, depois do número. Aprendeu com a mãe a arte circense, sabia fazer malabarismo, contorcionismo. No trapézio se sentia nas nuvens. Sem medo, tão jovem, tão audaciosa. Ela me contou todos os segredos dos mágicos, dos cuspidores de fogo, dos domadores de leão. Em três dias de circo era como se eu fizesse parte da trupe.

Dessa vez ela parecia voar, tão sublime apresentação, talvez por ser a última. Podem não acreditar, mas a vi jogar um beijo lá do alto. Roupa brilhante e justa no corpo, maquiagem bem feita, uma diva. Pela manhã, os equipamentos estavam quase desmontados, triste ver aquela cena desértica. A trapezista foi-se em um grande caminhão vermelho carregando minha pureza e alma.

5 comentários:

Luzzsh disse...

E o que ela deixou? Com certeza, muito mais que enredo pra um conto... ;)

Beijo.

Cackau Loureiro disse...

Bela moça...Beijos entre vôos!

Múcio L Góes disse...

algo aqui me levou a Macondo... emocionante, belo, perfeito!

[]´s

Hipacia disse...

Parabéns. Muito bem escrito esse conto, bem tocante, bem simples.
Até mais!

Larissa Marques disse...

meu silêncio é providencial, não obtive informes de Goianésia e já estou em meu terceiro livro, o que fazer para visitar a SPV de novo?