Atriz

Microconto Inabitual

Após algumas semanas de inatividade, eis-me. Excepcionalmente, texto no sábado.
Vermelho a cor do vestido. A perna atravessando a abertura proposital do tecido, os quadris se movimentando alucinados como a receber espírito. Cabelos loiros cortavam o ar e a boca carnuda chupava os olhos dos ávidos garotos. Assim a conheci, nada difícil arrancar-me o coração e tomá-lo para si. A atriz comprou minha alma a preço de banana. Não tinha mais jeito de escapar. Eu, dócil lebre nos dentes da tigresa.
Janela alta, pulei mesmo assim. Ninguém em casa percebeu. Na descida de escada, encontrei dois amigos, caminhamos muito em direção ao espetáculo. Meia-noite. A moça absorve completamente a platéia, outros atores e atrizes em cena são meros objetos animados. Que maravilha de mulher, que pernas, que seios estufados! Fim do show. Adentramos a coxia à sorrelfa, chegamos ao camarim da diva.
Na frente do grupo, empurrei a porta bem devagar, ouvi o rangido, ela também. “Quem são vocês?” “Somos fãs, queremos um autógrafo”. Eu disse isso com palavras engasgadas e pernas bambas. A atriz nos convidou a entrar, ofereceu uvas que estavam na cesta. Papeamos durante uns quinze minutos, tiramos fotos, ganhamos autógrafos, beijos e abraços. Dormimos felizes. Depois disso a mulher ficou sem graça, transformou-se em mortal, perdeu o mistério que a fazia sensual, linda e divina.

2 comentários:

Casti disse...

Antônio muitas vezes é melhor que o mistério perpetue...

Abraçooo!
Casti

Múcio L Góes disse...

quebrou-se o encanto, cada um pro seu canto.

abs!