A Fome de cada um

Microconto Inabitual

Acordo feito. O restante das vasilhas ficaria para ela. Arroz, feijão tropeiro, carne na chapa, qualquer coisa que sobrasse das mesas dos clientes poderia levar para casa ou comer ali mesmo. A cozinheira não escondeu o contentamento, pois sempre sobrava um pouquinho de cada item. Nem precisava se preocupar com comida em casa, um gasto a menos, dava até para fazer aquela viagem tão sonhada para Caldas. O dono do restaurante fez a proposta em troca de duas horas a mais de serviço da mulher, claro que a generosidade tem um preço. Ela nem pestanejou, aceitou de bate-pronto.

Fez-se fartura na casa de Clotilde, a família comia bem, nem parecia ser sobra de ontem. Não se importava com isso não. Bem, se fosse resto dos pratos vá lá, mas era uma comida intocada, virgem, colhida direto das travessas de vidro ou alumínio. Seu Erasmo, o patrão, apercebeu-se que o índice de sobras de comida estava aumentando. Constatou que a cozinheira colocava quase o dobro da porção nas mesas. Que mequetrefe, ordinária!

Clotilde se espantou com a placa que anunciava promoção. “Coma tudo, pague metade”. No início muitos ficaram relutantes em comer tudo, mas quando a promoção pegou o pecado da gula valia um desconto no bolso. Clotilde não se conformou com o despautério, passou a triplicar a quantidade, quadruplicar, quintuplicar. O número de obesos da cidade aumentou consideravelmente, uma calamidade pública. O restaurante fechou as portas. Clotilde, desempregada. Seu Erasmo, endividado no banco, mas feliz em saber que ninguém o explorava mais.

3 comentários:

Mary disse...

Hahaha, muito bom! Rindo aqui com o final!

Beijos!

Lua Durand disse...

muito bom!

agora eu me coloco no lugar da Clotilde, sei que ela não fazia por mal.

não sei.

beijos

passa para um Café.

Au Revoir

Múcio L Góes disse...

toda fome tem um nome...

ótimo texto.

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