Amor entre Tiros

Microconto Inabitual

Espirrou sangue pra todo lado, não pegou em mim. Odeio sangue. O nome é Nestor, Antenor, nem sei direito, é promotor de justiça, só sei isso. Disseram que era um cara muito chato, merecia morrer. E morreu, coitado. Daqui umas horas vão velá-lo, esposa chorando, gente indignada. Ao inferno todos. Dois mil não é dinheiro que se recuse por choramingos. Por que não escolheu outra profissão? Cutucar ferida de gente graúda só dá nisso. Um tiro certeiro na nuca, nem doeu. Rezar é bom nessas horas, serve na hora do acerto de contas com Deus.

Nada melhor que se sentar na poltrona do lar depois de um dia estressante, a molecada se joga afoita por um carinho. Um brinquedinho para cada um, dois quilos de bife para mulher fritar na janta, hoje é dia de fartura. Deixo as latinhas de cerveja na geladeira. Enquanto passa a novela, leio um gibi que comprei ontem nas bancas. Beberico um pouquinho de álcool para adoçar a boca cansada. João e Maria me chamam para brincar de ludo. Nossa, crianças dessa época ainda gostam de ludo, eu ainda prefiro um dominó, mas elas têm o direito de rolar dados com o pai. Uma hora se cansam, dormem. E tudo termina em sexo.

Na próxima vez juro que paro de ouvi-los. É só atirar, pronto, está feito. Esse meu coração mole. No meio da mata, de joelhos, olhando para mim, um cara feio pede que eu explique o por quê dele estar ali, do meu revólver apontar para sua cabeça, etc e tal. Todos fazem isso. Explico tim-tim por tim-tim. Oferece dinheiro, me dá nos nervos, sou profissional, ora essa. Pede pela família, pergunta se eu não tenho uma. Peraí, já é demais, dou três tiros na cabeça do malandro para não meter a sagrada família no meio da conversa. Me sujou todo de sangue o desgraçado. Odeio sangue.

2 comentários:

Larissa Marques disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Larissa Marques disse...

Risos, adoro seu sarcasmo, também odeio sangue, principalmente dos outros em minha roupa. É sempre um prazer peculiar ler-te.
Aproveito o ensejo para convidá-lo para vir à Feira do livro de Brasília, dia 09 de setembro apresentaremos o Bar do Escritor.