Morte e outras coisas à-toa

Estive ausente por uns dias por causa de problemas de saúde com meu filho, mas depois da tempestade, a bonança. Família revigorada, texto novo.

Microconto Inabitual

A fortuna de Adinésio teve início com um quiosque em dia de finados. Todos os apetrechos para uma boa manhã no cemitério. Velas, flores de plástico e terços eram os artigos mais procurados pela clientela. Muita gente em derredor dos túmulos. Do pequeno capital juntado a duras penas inaugurou funerária de uma só porta, vendeu dezoito caixões em um mês. Deslanchou no ramo, em pouco tempo aumentou o estabelecimento, instalou filial no outro lado da cidade. O anúncio de promoções era constante. Criou caixões estilizados de acordo com a preferência da família. Cortês como um nobre, qualquer um poderia ser um cliente em potencial. Foi capa de dezenas de revistas de economia.

Uma fita métrica sempre no bolso. Qualquer um que desse um espirro diferente já era alvo do solícito Adinésio. Media dos pés a cabeça o indivíduo e indicava o melhor ataúde. Com um bloco de seguros na pasta, preenchia na hora a proposta e colhia a assinatura do cliente. Naquele tempo ter o rito da morte organizado pela funerária de Adinésio era sinônimo de glamour. Ele havia transformado algo terrível em momento de sublimação. Com o know-how de Adinésio e slogans fortes criados por uma grande empresa publicitária, a morte ganhou ares de beleza e até de sensualidade. Na televisão o narrador dizia “sinta o êxtase da vida”, enquanto uma mulher em trajes justos acariciava o rosto do defunto.

Nos bastidores especulava-se que Adinésio estava cansado após trinta anos de sucesso, fama e dinheiro. Enfim chegou a vez dele fazer a passagem. Houve alarde geral da nação, a Bolsa de Valores despencou, políticos enviaram mensagens de melhoras, o povo acampou em frente ao hospital na esperança de ouvir boas notícias. Horas depois o médico comunicou a imprensa o falecimento do “homem imortal”. Com a morte de Adinésio muitas outras se sucederam, suicídios coletivos de seitas que o adoravam tornaram-se freqüentes, milhares de velhinhos e velhinhas que pagavam o seguro-funeral há vinte anos não resistiram a tanta emoção e bateram as botas. As empresas do Grupo Adinésio bateram recordes de faturamento. Começaram a surgir boatos de uma grande campanha de marketing, na verdade ele não morreu, vive com saúde numa ilha da Polinésia Francesa. Bem, é um bom lugar para se morrer.

2 comentários:

Ana P. disse...

Cara, sempre achei mto bizarro esse negócio de ganhar dinheiro com o sofrimento alheio. Assim, é um trabalho como outro qquer, mas é zuado... é bem zuado...

Tem uma amiga minha que paga um trem parecido com esse "seguro-funeral". Ela já escolheu a maquiagem, o carro funerário, a roupa que ela vai usar nesse dia, e tudo mais. ISSO SIM, é mto bizarro!

Larissa Marques disse...

Vá se acostumando, vida de pai é isso mesmo.Conto digno de quem o escreveu. Admiro sua habilidade para a prosa. Invejo-a. Beijo.