Janjão

Microconto Inabitual

Desisti dos classificados. Interessou-me um tal de Janjão, dezenove anos, negro, um e noventa, corpo atlético, olhos verdes. Duas horas e meia neste quarto de hotel procurando homens em jornal para nada. O medo me atingiu de cheio. Para mulher de quarenta que nunca tocou em corpo juvenil é como pisar em brasas ou cacos de vidro. Há quinhentos quilômetros de casa é fácil ser outra pessoa, será rápido, talvez não muito indolor, mas vai passar, esses rapazes são carinhosos, é o que dizem. Pode ser como andar de bicicleta, acostuma-se.

O congresso é maçante ao extremo. Se não fosse obrigatoriedade do hospital, chutaria o balde aqui mesmo. Pelo menos o hotel cinco estrelas é maravilhoso, moraria aqui sem problemas. Nessa cidade de milhões, ninguém pergunta coisas inúteis de medicina na rua, gente fraca do interior adora uma doençazinha para passar o tempo. Acho que vou ligar para o Janjão, só para conversar, alugar um ouvido de luxo. Ele pode me fazer um cafuné enquanto toca levemente nos meus seios. Espere, espere. O menino não vai agüentar ficar parado. É coisa de hormônio.

Os palestrantes sempre começam dizendo que tal termo deriva do latim, é uma fórmula que eles encontraram para mostrar que são superiores, nem sabem nada dos casos e da conjugação, só o suficiente para matraquear ao passo que a mão aponta para uma tela grande com gráficos ininteligíveis. O salário e as diárias ajudam muito para suportar tamanho tédio. Barbosa está sentado em sua poltrona a essa hora da noite, assistindo ao futebol. Janjão deve estar à espera de um telefonema que pode ser meu. Ai, Janjão, quem me dera.

4 comentários:

Múcio L Góes disse...

Muito bom!! É que pensar muito antes de fazer algo, às vezes, nao nos leva a nada.

abs, querido!

Larissa Marques disse...

seu sarcasmo me inspira.

Anônimo disse...

Antonio, falta dos seus textos e ao mesmo tempo feliz com a recuperaçção de seu filho! Isso ai, bom retorno em tudo.

Abraçoo,
Casti

moacircaetano, todo prosa! disse...

Rapaz, depois de tantas visitas frequentes e carinhosas ao meu blog, muito bom poder finalmente te visitar. Muito bom seu texto, gostei bastante. E melhor ainda saber que vc é do meu Estado, Goiás; embora eu ande residindo em Marília-SP.
Grande abraço!