O Homem Invisível

Microconto Inabitual
Toda empresa tem o boa-gente que faz de tudo um pouco. Adélio se desdobrava nos serviços burocráticos e na máquina de escrever do escritório. Nunca se deu com o computador e alguns documentos exigiam um datilógrafo. Diligente ao extremo estava no cargo de auxiliar há dezesseis anos, um sorriso continuamente estampado no rosto. Chovesse canivete, Adélio estava de prontidão tal um cãozinho bem treinado. Com tanta presteza conseguiu se manter no posto em tempos de vacas magras. Contudo, corria um falatório que ele seria dispensado com a chegada do novo gerente. Adélio o recebeu com vivas.
De nada adiantou a gentileza, ao cabo de uma semana Adélio adentrou a sala do RH para assinar a papelada. Saiu cabisbaixo, sem falar muito, além de um “muito obrigado por tudo”. Semana passada houve uma brincadeira com um colega, algemaram-no na mesa e tudo mais. Adélio lembrou-se que a algema estava em sua escrivaninha. Num ato súbito pegou a algema, saiu pela janela, a prendeu na pilastra e gritou: “eu vou me matar”. Ele, do nono andar.
No dia seguinte, pela manhã, a família liga desesperada à procura de Adélio. A telefonista não se lembra do empregado, pergunta à colega que também não tem idéia de quem seja tal pessoa, transfere para o ramal de compras, ninguém o conhecia, para a logística, nada, até que um analista sênior, com a ajuda do sistema corporativo informatizado consegue localizá-lo, “Adélio não pertence mais ao quadro de funcionários”. No terceiro dia, Adélio, já desidratado, desiste da empreitada. Solta as algemas, recolhe os pertences da escrivaninha e deixa o escritório rumo ao elevador.

2 comentários:

Hipacia disse...

Oi. Adorei esse microconto. Kafkiano, não?

Hipacia disse...

Li os outros também, e gostei principalmente do Analfabeto.