Almoço de Família

Microconto Inabitual
Ah, almoço de família. A fome corroendo o estômago, disfarçada por horas enfadonhas. Enquanto o homem vai ao banheiro (de certo é o dono da casa) as cunhadas jovens fazem comentários capciosos sobre o volume da virilha. Quatro crianças entre cinco e dez anos brincam de pique. Dois homens se beijam às escondidas na garagem. Uma mulher prepara o arroz.
A velha vai ao galinheiro fazer o serviço. Sinal de morte à vista. Fácil pegar a presa. Com a cabeça em punho dá meia dúzia de voltas no pescoço. A degola está feita. Duas partes desprendidas, independentes. A galinha vai cair em si; quando descobrir que está morta morrerá. Pulando, pulando. Passam-se minutos. O relógio estica-se. Duas horas. A galinha ainda está viva.
Como salvar o almoço? Partiu de uma criança a idéia genial: vamos almoçar fora! Todos concordaram. Os dois carros saem deixando a galinha. Bota um ovo. Aos poucos foi se habituando a viver assim. Percebeu que sua cabeça era inútil.

11 comentários:

Alexandre disse...

Um ótimo conto bizarro, gostei!
Obrigado pela passagem pelo meu blog!
Abraços

Ariane disse...

olá vim retribuir sua visita ao meu ninho, e eu vegeteriana que sou, sofri um bocado com o microconto :), mas não deixei de me divertir com inusitado almoço de domingo, nessas reuniões podemos esperar de um tudo não é mesmo? ;)

prazer em conhecê-lo

um abraço

Larissa Marques disse...

Odeio domingo, almoço em família então, um show de hipicrisias, sinto-me a própria galinha destroncada, sarcasmo delicioso nesse conto, com direito até a casal gay, que apoio com todo meu âmago!
Adorei...

Octávio Roggiero Neto disse...

poeta citadino que sou, não me é habitual o processo todo: as faces múltiplas da morte. sabe como é, a coxa saborosa já chega prontinha e esfumaçando no prato.

"adorei!" - pelo visto é esta a primeira palavra que vem à cabeça quando se lê seus escritos. por isso, enquanto inda tenho a minha caixola...

talvez o pior de tudo não tenha sido nem perder a cabeça, mas perceber que ela nem fazia falta. quantas pessoas andam por aí como a pobre galinha, né não?

Antônio, parabéns por sua prosa, por toda sua ousadia, é mesmo de tirar o chapéu!

té mais ler!

Van disse...

Antonio, querido.....
Prazeres diários e surpresas agradáveis hoje! Um prazer ler seu comentário no meu humilde blog. Vim retribuir e eis que descubro um blog interessantíssimo. Adorei tudo por aqui! Vc escreve muuuito!

Beijos e até breve.
Espero te 'ver'outras vezes no meu blog. Bem-vindo à minha VAN Filosofia!

Fernando Palma disse...

Olá Antônio, seus microcontos são bem diferentes, inusitados, atraem nossa leitura...
Bom conhecer seu espaço.

Abraços...

Tiago disse...

ô, rapaz... só quem já degringolou uma galinácea pra saber. é difícil morrer. abraço.

Ana P. disse...

COITADA DA GALINHA!!!

mas já que ela achou melhor viver sem a cabeça então tá bom...

Casti disse...

Antonio, sempre bom te ler!

Bjão,
Casti

Hipacia disse...

estranho, como mexem as palavras com um universo interno da gente.
eu adorei o conto, bem denso.

diovvani mendonça disse...

Minha avó, nunca matava galinhas perto das crianças. Ela dizia que se alguém ficasse com pena, a bichinha demoraria para morrer. AbraçoDasMontanhas.

P.E.: Num almoço em família aos domingos, pode acontecer todo tipo de imprevisto.