Onde está Aroldo?

Microconto Inabitual
Quando desisti do curso ginasial para subir no altar minha mãe me disse: perde-se leitura, ganha-se um homem. Naquela ocasião o valor de mercado de um homem estava superestimado. Aroldo possuía um viço que pagava a pena deixar livro, diploma, carreira e trabalho mofando na estante velha da despensa. Essencial pensar que tipo de gente ia sair do meu ventre; o que os vizinhos comentariam se nascesse uma criança mirrada? Com Aroldo a prole vingaria.
A mim foi dada a incumbência da casa e filhos e o silêncio. A ele, trabalho, botequim e futebol. Entre frigideiras, mamadeiras, panelas de pressão e fraldas a vida foi descaindo tal areia de ampulheta sem permissão para virá-la. Aroldo sumiu de casa continuamente. Um dia chegou da oficina e custei a reconhecer a face, esfreguei os olhos. Que foi, mulher?! Nada, nada. Era ele.
Numa manhã, ele apareceu sem barba. À tarde, sem bigode. À noite, sem cabelo. As perdas sucessivas se estenderam por dias, os dedos da mão foram desaparecendo, depois uma das orelhas, o pé esquerdo. Na sala de jantar, pronunciou algumas palavras, mas elas foram diminuindo até que sua boca não emitia som algum. Ao tomar fé da situação notei que Aroldo não mais existia. O que sobrou dele foi um copo de cerveja pela metade em cima da mesa.

8 comentários:

Raquel disse...

Olá!
Vim matar as saudades dos seus textos!!
Obrigada pela visita!
Beijos

Fernando Palma disse...

Que conto louco, abstrato e real. Não se posso falar mais que isso. Mas é instigante...

Jô Beckman disse...

adorei seus textos! Voltarei mais vezes!
abraço

diovvani mendonça disse...

Aos poucos, todos nós, vamos adentrando o mistério. AbraçoDasMontanhas.

Casti disse...

Antônio, todos os dias nós sumimos aos poucos e vamos tomando outras formas, muitas vezes as quais não queremos. Sempre bom te ler!

Bj
Casti

paulo vigu disse...

No vento
Meio por fora
Meio lento
Saí do meio do rio
Caí no meio do mar
~~~~~~~~~~~~~~
Fechei pra balanço
Renovei águas
As águas que vem de dentro~~~~~~
Riodaqui - muito trabalho - abraço - paulo vigu

cm disse...

ler estes textos é olhar o mundo pelo caleidoscopio da metafora, num universo tão palpavél e concreto que se bebe nos copos cheios de imagens...

recorda-me o poema de Daniel Faria:
"Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem(...)".

Daniel Faria,


um abraço

Larissa Marques disse...

Menino,
adoro você falndo em primeira pessoa de uma persona feminina, capta a nossa essência, que acredito ser peculiar aos olhos masculinos.
O seu persona masculino nesse conto é algo fenomenal também, imprime os sentimentos de abandono dela em Aroldo, que sarcásticamente foi desfigurado, até sumir completamente, como poeira no fim do conto. O que dizer?
Sou sua fã!