Enterro do Santo Homem

Microconto Inabitual
Ele se foi tão jovem, deixando esposa e dois filhos pequenos. A viúva e a mãe choravam a conta-gotas, umedecendo os lenços brancos a cada lacrimação. No velório, os amigos e parentes mais próximos o olhavam com o desdém de quem atira a sangue frio. Evidentemente, para todos, a comoção do momento transforma o defunto em ser inferior, ali estendido no caixão, submisso, frágil.
No ritual tudo é perdoado. Mesmo o caso que ele teve com a vizinha do 220 foi esquecido definitivamente, a carne é fraca para os vivos. As duas vezes em que foi preso tramando motins na fábrica foram meras oscilações de personalidade. De quando em quando era chato e ignorante, mas as pessoas entendiam, com exceção de alguns amigos que o xingaram de sacripanta. Nem se importou.
Durante o enterro, ficou a cargo do padre a missão de proferir o discurso final. Os clérigos são peritos em quinta-essenciar qualquer alma, existem para isso. O velho começou a destacar os valores morais e familiares do falecido, qual não foi sua surpresa quando a viúva gritou aos quatro ventos: "João era ateu!". Era tarde, para os presentes João era um homem bom, um bom cristão. Afinal, todo morto vira santo.

10 comentários:

Casti disse...

Grande Antônio, depois de morto tudo se transforma... Perfeito velório!

Abraçooo,
Casti

Obs. Obrigada pela visita.

clarice ge disse...

Fofocar na frente do defunto deve deixar o morto irritado por não poder se defender.
Curto e bom, como sempre.
Abraço meu

Hipacia disse...

Olá! Obrigada pelos comentários. Esse texto é bem daqueles que traduzem olhando de fora uma coisa corriqueira e é então que a gente percebe o quanto o ser humano é ridículo. A maneira que você conduz a narrativa é bem interessante, bem visual.

Múcio Góes disse...

é, basta muito pouco pra ser santo qq homem, é só morrer!

ótimo texto!

[]´s

beleza de mulher disse...

uiiiiiiiiiii lindo

Milla Loureiro disse...

HEHEHEHE

É ASSIM MESS....SEJA BEM VINDO AO MEU CAFÉ.VOU TE LINKAR E VOLTAREI SEMPRE!!

=)

Ana P. disse...

É por essas e outras que eu quero ser cremada. E antes tem que fazer uma big festa! Assim todo mundo fala mal de todo mundo e esquece de mim!

\o/

otávio m mártinezi disse...

Ótimo texto! A lucidez dele é tremenda. Destaca muito mais do que a hipocrisia humana, ele toca na questão da sociologia e psicologia do vitimismo onde a moral é escurraçada e tudo é perdoado alegando-se desvios de comportamento, a carne é fraca, coitadinho.

É isso.

Larissa Marques disse...

E quando não é cedo demais, quando se é um querido, meu pai foi-se cedo demais, meu noivo foi-se cedo demais, meu filho foi-se cedo demais. E quantos outros amores ainda terei que chorar?
Beijo grande, como o padrão Antônio Alves, magnífico!

diovvani mendonça disse...

(rsrs)
Muito bom, Antônio! Essas coisas acontecem. Gosto do seu jeito. de narrar as coisas. AbraçoDasMinas